← Voltar ao blog

Envio de biópsia cutânea para cultura de fibroblastos e iPSC

27 de outubro de 2026
Envio de biópsia cutânea para cultura de fibroblastos e iPSC

Uma biópsia cutânea enviada para cultura de células tem de chegar viva ao laboratório. É isso que a separa de uma biópsia de diagnóstico. Para isso precisa de três coisas: um fragmento com derme, um recipiente estéril com meio de cultura e antibióticos, e uma viagem curta à temperatura ambiente, sem congelar e sem formalina. Este guia explica cada passo, da recolha no consultório à rotulagem da caixa nos Estados Unidos. Explica também o que acontece depois, quando os fibroblastos do doente são reprogramados em células estaminais pluripotentes induzidas (iPSC) para criar um modelo da doença.

Hopeatrarelabs
hopeatrarelabs.com
Da biópsia a um modelo personalizado
A RareLabs desenvolve modelos de doença a partir de células dos doentes para testar tratamentos em doenças genéticas raras.
Conheça a RareLabs

Em resumo

  • Uma biópsia em punch de cerca de 3 mm chega, desde que inclua a derme, que é a camada de onde crescem os fibroblastos.
  • Nunca use formalina nem congele a amostra. Coloque-a num tubo estéril com meio de cultura e antibióticos e mantenha-a à temperatura ambiente.
  • Planeie o envio noturno para que a amostra chegue ao laboratório em 24 a 48 horas. Evite recolhas que obriguem a amostra a ficar parada durante o fim de semana.
  • A caixa segue como substância biológica de Categoria B (UN 3373), com dois identificadores do doente no tubo e o formulário de requisição preenchido.
  • Antes da recolha, confirme o consentimento para investigação com iPSC. Os fibroblastos podem ser guardados durante anos e reprogramados mais tarde.

Índice

Porque é que esta biópsia não se envia como as outras

Num consultório de dermatologia, quase todas as biópsias seguem o mesmo caminho. O fragmento vai para um frasco com formalina, é fixado e depois é cortado e corado para observação ao microscópio. A formalina preserva a estrutura do tecido, mas mata as células. Para um diagnóstico histológico isso não é problema. Para uma cultura de fibroblastos, inviabiliza a amostra.

A própria literatura clínica distingue os dois casos. A revisão da StatPearls sobre biópsia cutânea refere que a maioria das amostras é colocada em formalina. Exames como a imunofluorescência direta e as culturas de tecido exigem outros meios, como a solução de Michel ou o soro fisiológico estéril. Na prática, o erro mais comum é uma equipa habituada a biópsias de rotina pôr o fragmento no frasco de formalina por reflexo. Quando isso acontece, não há forma de recuperar as células e o doente tem de voltar a ser picado.

Por isso, se é familiar de um doente ou médico-assistente, diga claramente à equipa que faz a recolha que a amostra se destina a cultura de células vivas. O ideal é que o kit de envio enviado pelo laboratório de destino esteja na sala antes de a biópsia começar. Se quiser perceber primeiro o enquadramento, o nosso texto sobre biópsia para modelo celular explica para que serve esta recolha e como se encaixa num programa de investigação.

Porque é que esta biópsia não se envia como as outras — overview diagram

Como é feita a recolha

A recolha é um procedimento ambulatório curto, semelhante a qualquer biópsia em punch. Um protocolo publicado na Current Protocols em 2023 descreve a sequência habitual:

  1. Limpar o local com álcool e iodo.
  2. Anestesiar a pele com lidocaína.
  3. Retirar uma única biópsia de cerca de 3 mm com instrumentos esterilizados.
  4. Fazer o penso com pomada antibiótica, gaze estéril e um adesivo.

Dois pormenores fazem diferença no laboratório. O primeiro é a profundidade. As instruções da University of Florida Health Pathology Laboratories pedem tecido suficientemente profundo para incluir a derme. Um fragmento superficial, só com epiderme, pode simplesmente não dar fibroblastos. O segundo é a assepsia. Uma cultura contaminada por bactérias ou fungos perde-se, e o antibiótico do meio de transporte ajuda mas não compensa uma recolha descuidada.

O local exato da recolha costuma ser combinado com o médico, e muitas vezes escolhe-se uma zona pouco visível. Se o doente tiver alterações cutâneas próprias da doença, vale a pena discutir com o laboratório se a amostra deve vir de pele afetada ou de pele aparentemente normal. A resposta depende da pergunta científica.

Meio, recipiente e temperatura

Aqui está a parte que mais decide se a cultura vai crescer. As instruções da University of Florida resumem bem a regra:

  • Recipiente: tubo estéril com meio de cultura e antibióticos.
  • Temperatura: ambiente, desde a recolha até à entrega.
  • Proibido: congelar ou fixar o tecido.
  • Prazo: entrega no laboratório em 24 a 48 horas, por envio noturno.

A University of Chicago Genetic Services aconselha o mesmo envio à temperatura ambiente. Acrescenta uma nuance útil: se a amostra tiver de esperar uma noite antes de seguir, pode ficar no frigorífico para reduzir o risco de contaminação. Frigorífico, note-se, e não congelador.

Se não tiver meio de cultura à mão, não improvise com água da torneira nem com um frasco qualquer. Contacte o laboratório de destino antes da recolha. Muitos enviam o tubo com meio já preparado ou indicam uma alternativa aceitável, como soro fisiológico estéril, que a StatPearls cita entre os meios alternativos para cultura de tecido.

Quanto tempo pode a amostra viajar

O intervalo de referência é de 24 a 48 horas entre a recolha e a entrega. Os fibroblastos resistem bem a um dia de viagem num meio adequado, mas cada hora a mais aumenta o risco de a cultura não arrancar ou de ficar contaminada.

O que realmente compromete este prazo não é a distância. É o calendário. Na prática, há regras simples que evitam a maioria dos problemas:

  • Marque a recolha para o início da semana. Uma biópsia feita à sexta-feira à tarde pode ficar parada num armazém da transportadora até segunda.
  • Confirme se o laboratório recebe amostras ao sábado e se há feriados federais ou locais na semana do envio.
  • Avise o laboratório no dia da recolha e envie o número de seguimento, para que alguém esteja à espera da caixa.
  • Escolha o serviço noturno prioritário, com entrega de manhã, e não o serviço económico.

E se houver atraso? Fale primeiro com o laboratório e não deite a amostra fora. Uma biópsia que chegue um pouco fora do prazo pode ainda dar fibroblastos, sobretudo se esteve no meio certo e à temperatura certa. Quem decide se vale a pena tentar a cultura ou se é melhor repetir a recolha é a equipa que a vai processar. Se a amostra tiver de ficar retida uma noite, siga a indicação da University of Chicago: frigorífico e nunca congelador.

Embalagem e rotulagem nos Estados Unidos

Nos EUA, uma biópsia destinada a cultura viaja normalmente como substância biológica de Categoria B. O guia de rotulagem do CDC define o que a embalagem exterior tem de mostrar:

Elemento na caixa exteriorO que escrever ou colar
Etiqueta de substância biológicaEtiqueta em losango com UN 3373
Número de identificaçãoUN 3373
Designação oficial de transporte"Biological Substance, Category B"
Expedidor e destinatárioNome e morada de quem envia e de quem recebe
Pessoa responsávelNome e telefone de alguém contactável durante o transporte

O mesmo guia trata do gelo seco, que exige a marca UN 1845, o peso líquido do gelo seco em quilogramas, uma etiqueta de Classe 9 e a designação "Carbon dioxide, solid" ou "Dry Ice". Para uma biópsia fresca destinada a cultura, porém, o gelo seco não se usa, porque congelaria o tecido. Estas regras só se aplicam se mais tarde enviar células já criopreservadas, como fibroblastos ou iPSC congelados.

Dentro da caixa, o tubo deve ir bem fechado, com material absorvente e protegido de choques. A transportadora pode ter exigências próprias para a Categoria B. Confirme-as antes de fechar a encomenda e, se o laboratório fornecer um kit pré-aprovado, use-o.

Documentos, identificação e consentimento

Uma amostra perfeita pode ser recusada por falta de papelada. A University of Chicago Genetic Services exige que cada amostra leve pelo menos dois identificadores do doente, como o nome completo e a data de nascimento, e que siga acompanhada do formulário de requisição preenchido.

Para um programa de modelação de doença, o pacote costuma incluir:

  • Formulário de requisição com os dados do doente, do médico e do local de recolha.
  • Resumo clínico com o diagnóstico, ou a suspeita de diagnóstico, e a variante genética identificada, se existir.
  • Relatório genético, quando houver, para que o laboratório saiba que mutação vai estudar e corrigir.
  • Consentimento informado específico para investigação com células estaminais.

O consentimento merece atenção. As orientações do IRB da UCSF para protocolos de derivação de iPSC indicam que os dadores devem ser informados de que as células podem ter utilizações hoje desconhecidas, de que os genes podem ser analisados ou manipulados e de que as linhas derivadas podem ser patenteadas sem direitos de patente nem benefício financeiro para o dador. São pontos que uma família deve ler com calma antes da biópsia, e não no corredor da clínica.

Se a amostra ou os dados forem partilhados entre instituições, entram também os acordos de transferência de material. Explicamos o essencial em antes de assinar um MTA e em partilhar dados genéticos com investigadores.

Dos fibroblastos às células iPS

Quando a caixa chega, começa a parte que as famílias raramente veem. Segundo um capítulo de protocolo publicado em 2016, produzir uma linha iPS específica de um doente tem três etapas: fazer a biópsia, extrair os fibroblastos e reprogramá-los para o estado pluripotente.

Crescimento dos fibroblastos

Nesse protocolo, a biópsia é lavada, dividida em 10 a 12 fragmentos e posta em cultura. Os fibroblastos crescem durante 2 a 3 semanas até poderem ser recolhidos e passados. Um protocolo xeno-free compatível com cGMP, de 2017, descreve uma variante: lava-se a biópsia duas vezes, corta-se em fragmentos finos, deixa-se secar ao ar durante 5 minutos e cobre-se com 3 mL de meio. O crescimento significativo de fibroblastos costuma aparecer 3 a 5 dias depois.

No mesmo protocolo, os fibroblastos confluentes são dissociados com TrypLE a 37 °C, centrifugados e replaqueados a 250 000 células por poço. Para armazenamento, ficam a −80 °C durante a noite e passam depois para azoto líquido. É este banco de fibroblastos que permite voltar à amostra anos mais tarde, sem nova biópsia.

Reprogramação

Para a reprogramação, o protocolo de 2016 usa vírus Sendai portadores dos quatro fatores clássicos, OCT3/4, SOX2, KLF4 e c-MYC. As colónias de células iPS que surgem são isoladas e expandidas. A partir daí, as iPSC podem ser diferenciadas no tipo celular relevante para a doença, seja neurónio, astrócito, microglia, cardiomiócito ou outro. O nosso guia de seleção de tipos celulares iPSC ajuda a perceber essa escolha.

Controlos de qualidade e limites a conhecer

Uma linha iPS só é útil se for fiável, e há três pontos que convém conhecer antes de confiar nela.

Materiais e pureza. Uma revisão sobre a tradução clínica das iPSC recomenda sistemas de cultura definidos e, sempre que possível, evitar o soro fetal e os fibroblastos embrionários de ratinho, porque os materiais de origem animal podem introduzir xenopatogénios. A mesma revisão defende critérios consistentes de viabilidade, função, pureza e esterilidade. A contaminação por micoplasma é um dos riscos mais traiçoeiros, porque não se vê ao microscópio. Tratamo-la em detalhe no texto sobre teste de micoplasma em iPSC.

Pluripotência confirmada. Não basta que as colónias tenham bom aspeto. É preciso demonstrar que as células são realmente pluripotentes, e resumimos o mínimo exigido em caraterização de pluripotência.

Controlos de qualidade e limites a conhecer — overview diagram

Número de linhas e de doentes. A variabilidade entre linhas pode imitar ou esconder o efeito da mutação. Num estudo sobre a doença de Lesch-Nyhan, 3 a 4 indivíduos por grupo otimizaram a sensibilidade e a especificidade para diferenças de expressão génica. Duas linhas por indivíduo melhoraram os resultados, com pouco ganho na terceira, e diferenças grandes, de 3 a 5 vezes, podiam ser detetadas com um único par de linhas. Numa doença ultra-rara, muitas vezes há um único doente, e é por isso que as linhas isogénicas corrigidas por CRISPR são tão valiosas. Comparam as células do doente com as mesmas células sem a mutação, o que isola o efeito da variante.

Lista de verificação antes de fechar a caixa

PassoVerificado
Consentimento para investigação com iPSC assinado☐
Recolha marcada para o início da semana☐
Biópsia com derme, cerca de 3 mm☐
Tubo estéril com meio e antibióticos, sem formalina☐
Tubo com dois identificadores do doente☐
Requisição, resumo clínico e relatório genético na caixa☐
Etiqueta UN 3373 e contacto do responsável na caixa exterior☐
Envio noturno prioritário e laboratório avisado☐

A nossa perspetiva

Trabalhamos com doenças genéticas ultra-raras, muitas delas sem tratamento aprovado e, por vezes, sem diagnóstico definitivo. Nestes casos, a biópsia cutânea não é um pormenor logístico. É o ponto de partida de tudo o que vem depois. Dela saem os fibroblastos, deles saem as iPSC, e destas o modelo vivo da doença onde testamos milhares de opções terapêuticas em paralelo.

O que aprendemos é que a maioria dos problemas acontece antes de a amostra chegar ao laboratório: o frasco de formalina pego por hábito, a recolha numa sexta-feira, o consentimento que não cobre a investigação com células estaminais. Nenhum destes erros é científico, e todos se evitam com uma conversa de dez minutos antes da recolha. Por isso preferimos acompanhar a família e o médico desde o primeiro contacto, em vez de receber uma caixa sem contexto.

Também defendemos ser francos sobre o tempo. Um programa completo de modelação e triagem demora, no nosso caso, 12 a 15 meses. A biópsia bem enviada não encurta a ciência, mas evita perder semanas a repetir uma recolha que não devia ter falhado. Para uma família à espera, essas semanas contam. Detalhamos as fases em quanto tempo demora um programa iPSC.

— John

Quando a biópsia é o início de um programa

Se procura um tratamento para uma doença genética ultra-rara, a RareLabs pode transformar a biópsia num programa completo. Criamos e guardamos em biobanco um modelo iPSC derivado das células do doente, validado com linhas isogénicas corrigidas por CRISPR. Fazemos uma triagem de cerca de 3000 medicamentos já aprovados pela FDA, desenhamos e validamos in vitro oligonucleotídeos antissenso (ASO) personalizados e avaliamos estratégias de terapia génica. Muitas famílias começam por um estudo de viabilidade com roteiro de descoberta. Pode conhecer os nossos programas de medicina genética e falar connosco antes de marcar a recolha.

Perguntas frequentes

A biópsia para cultura dói mais do que uma biópsia normal?

Não. É o mesmo procedimento de uma biópsia em punch, com anestesia local por lidocaína e um fragmento de cerca de 3 mm. A diferença está no que acontece à amostra depois, e não no que o doente sente. O médico que faz a recolha pode explicar os cuidados com a ferida, que costuma ter um penso simples.

Posso guardar a biópsia no frigorífico até ao dia seguinte?

Se tiver mesmo de esperar uma noite, a University of Chicago Genetic Services admite a refrigeração para reduzir o risco de contaminação. Nunca a ponha no congelador nem em formalina. Avise o laboratório do atraso, porque o objetivo continua a ser a entrega em 24 a 48 horas.

Preciso de gelo seco para enviar a biópsia?

Não. A biópsia fresca para cultura viaja à temperatura ambiente, e o gelo seco congelaria o tecido. O gelo seco e a marcação UN 1845 só entram em jogo quando se enviam células já criopreservadas, como fibroblastos ou iPSC congelados.

Quanto tempo demora até haver células iPS?

Os fibroblastos crescem a partir da biópsia em poucos dias a algumas semanas, consoante o protocolo, e depois são reprogramados e as colónias expandidas. A caraterização e os controlos de qualidade acrescentam mais tempo. O calendário exato depende do laboratório e do projeto, e o programa completo de modelação e triagem demora bastante mais do que a simples obtenção das células.

A mesma amostra pode servir para vários estudos?

Pode, se os fibroblastos forem criopreservados em azoto líquido e se o consentimento o permitir. Um banco de fibroblastos e de iPSC permite voltar ao material sem nova biópsia. Por isso convém ler com atenção as cláusulas de consentimento sobre utilizações futuras.

Fontes

Recomendações