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Avaliar ROI em investigação de doenças ultra-raras

July 28, 2026
Avaliar ROI em investigação de doenças ultra-raras

Avaliar o retorno sobre investimento em investigação de doenças ultra-raras exige um quadro que vai muito além de métricas financeiras simples. O método mais eficaz combina benefícios clínicos mensuráveis, ganhos operacionais e valor de conformidade regulatória, integrado com avaliação económica formal como análise de custo-efetividade (CEA) e análise do valor da informação (VOI). Sem este enquadramento holístico, a maioria dos projetos parece cara demais para avançar, mesmo quando o impacto real para o doente e para o sistema de saúde justifica claramente o investimento.

TL;DR — 5 passos essenciais:

  • Definir a questão: população, intervenção, comparador, desfechos e horizonte temporal
  • Escolher o modelo: modelos patient-specific (iPSC/CRISPR) para descoberta pré-clínica; Markov ou simulação de eventos discretos (DES) para avaliação de reembolso
  • Aplicar métodos económicos: CEA/CUA, análise de impacto orçamental e VOI
  • Gerir dados e incerteza: registos do SNS, colaborações com o IMM e FCT, análises de sensibilidade probabilísticas
  • Executar e monitorizar: cronograma faseado com pontos de reavaliação a cada 6–12 meses

Em Portugal, as decisões de financiamento e reembolso passam pelo INFARMED e pelo SNS. A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) financia investigação académica, e centros como o Instituto de Medicina Molecular (IMM) fornecem infraestrutura clínica e científica. Laboratórios especializados como a Hopeatrarelabs integram modelagem patient-specific com suporte à avaliação económica desde a fase pré-clínica.


Índice

Por que o ROI convencional não funciona em doenças ultra-raras

A fórmula clássica de ROI, lucro obtido menos investimento dividido pelo investimento, foi desenhada para contextos com populações grandes, retornos rápidos e incerteza baixa. As doenças ultra-raras invertem todas estas condições.

Equipa a analisar o retorno do investimento durante a reunião

A população de doentes é, por definição, muito pequena. Os custos por doente são elevados. O horizonte até resultados mensuráveis pode estender-se por anos. E a incerteza científica é estrutural, não acidental. Uma análise de 53 relatórios de tecnologias para doenças ultra-raras mostrou que os custos variaram amplamente e nem sempre influenciaram a recomendação final de incorporação, confirmando que os limiares convencionais de custo-efetividade não se aplicam adequadamente a estas patologias.

O que realmente importa avaliar é o valor sistémico:

  • Alteração da história natural da doença (progressão evitada, hospitalizações reduzidas)
  • Qualidade de vida do doente e da família (medida em QALYs ou DALYs)
  • Redução de custos futuros ao SNS por eventos clínicos evitados
  • Mitigação de risco regulatório e reputacional para o patrocinador
  • Valor da informação gerada para decisões futuras de investigação

Dica profissional: Evite avaliações pontuais. Um projeto de investigação em doenças ultra-raras amadurece ao longo do tempo; prefira séries temporais com reavaliações periódicas a cada 6–12 meses para capturar o retorno real à medida que a evidência se acumula.


Como estruturar a questão de avaliação antes de qualquer cálculo

Antes de escolher qualquer modelo ou método económico, a questão de investigação tem de estar bem definida. Especialistas em economia da saúde confirmam que a formulação estruturada da pergunta é o que alinha o método de modelagem à complexidade da patologia e à decisão pretendida.

A checklist mínima inclui:

  • População: doença ultra-rara específica, critérios de inclusão, número estimado de doentes em Portugal
  • Intervenção: modelo patient-specific (iPSC, CRISPR), fármacos testados, oligonucleótidos antissentido (ASOs) ou terapia génica
  • Comparador: melhor tratamento disponível, cuidados paliativos ou ausência de tratamento
  • Desfechos: clínicos quantificáveis (sobrevivência, progressão), qualidade de vida, custos diretos e indiretos
  • Horizonte temporal: curto (até 2 anos), médio (2–5 anos) ou longo (vida inteira do doente)
  • Perspetiva: SNS, patrocinador privado ou sociedade

Definir a perspetiva do pagador logo no início evita retrabalho. Uma avaliação desenhada para o SNS exige dados de custos unitários hospitalares portugueses; uma perspetiva de patrocinador privado pode incluir custos de investigação e desenvolvimento. Os requisitos éticos, incluindo aprovação por comissão de ética e conformidade com o RGPD, devem constar da proposta desde o primeiro rascunho. Parcerias com o IMM ou centros hospitalares universitários reforçam a credibilidade da proposta junto ao INFARMED e à FCT.


Que modelo escolher: patient-specific ou epidemiológico?

A resposta depende da pergunta. Modelos iPSC e patient-specific respondem a questões de descoberta pré-clínica: qual composto tem atividade neste doente específico? Modelos de Markov e DES respondem a questões de avaliação para registo e reembolso: qual o custo por QALY ganho ao longo de 10 anos?

DimensãoModelos patient-specific (iPSC)Markov / DES
PropósitoTriagem pré-clínica, descoberta terapêuticaAvaliação regulatória e de reembolso
Horizonte temporalCurto (semanas a meses de laboratório)Médio a longo (anos a vida inteira)
Dados necessáriosAmostras do doente, ensaios in vitroRegistos clínicos, RWE, literatura
Nível de incertezaElevado (translação pré-clínica/clínica)Moderado a elevado (parâmetros populacionais)
Custos e recursosLaboratório especializado, iPSC, CRISPRModeladores económicos, bases de dados
GeneralizabilidadeBaixa (específico ao doente)Maior (população-alvo definida)
Complexidade ética/regulatóriaConsentimento, RGPD, biobancosAprovação INFARMED, submissão HTA

A abordagem mais robusta combina as duas: os resultados laboratoriais de iPSC (taxas de resposta, biomarcadores) alimentam os parâmetros de eficácia dos modelos de Markov ou DES. Esta integração é o que transforma dados de bancada em argumentos económicos defensáveis perante o INFARMED.

Dica profissional: Documente cada decisão metodológica com justificação explícita. O INFARMED e os revisores da FCT esperam transparência total sobre as escolhas de modelagem, especialmente quando a evidência clínica é escassa.


Que métricas e métodos económicos aplicar

O ROI em saúde deve ser holístico, incorporando benefícios clínicos, operacionais e de conformidade no numerador, não apenas receita financeira direta.

As métricas primárias a reportar:

  • QALYs ganhos e custo por QALY (limiar a negociar com INFARMED para ultra-raras)
  • DALYs evitados quando o foco é carga de doença populacional
  • Custo por evento clínico evitado (hospitalização, progressão, complicação)
  • Análise de impacto orçamental para o SNS a 3–5 anos
  • VOI para identificar onde investigação adicional reduziria incerteza decisória

Os métodos económicos a combinar:

  • CEA e CUA como base para submissões regulatórias
  • Análise de sensibilidade univariada e probabilística para quantificar incerteza
  • Análise de custo-benefício quando os benefícios podem ser monetizados (redução de internamentos, ganhos de produtividade)
  • VOI para priorizar próximos estudos e justificar investimento incremental

Monetizar benefícios operacionais também conta: redução do tempo de diagnóstico, diminuição de erros clínicos e poupança em tratamentos sintomáticos substituídos têm valor real para o SNS, mesmo que não apareçam nos modelos de custo-efetividade tradicionais.


Que dados precisa e como gerir a incerteza

Os dados necessários para uma avaliação credível incluem:

  • Amostras biológicas do doente (para modelos iPSC)
  • Endpoints clínicos validados e biomarcadores relevantes
  • Custos unitários hospitalares portugueses (tabelas do SNS)
  • Registos nacionais de doenças raras e bases de dados europeias (Orphanet, EUCERD)
  • Literatura sistemática sobre história natural da doença
  • Dados de qualidade de vida específicos da patologia (EQ-5D, PedsQL)

Para gerir a incerteza, as técnicas padrão são análise de sensibilidade univariada (variar um parâmetro de cada vez), análise probabilística de sensibilidade (simulação de Monte Carlo) e análise de cenários plausíveis. A VOI quantifica o valor esperado de reduzir incerteza, orientando decisões sobre se vale a pena financiar estudos adicionais antes de avançar para reembolso.

Em Portugal, as fontes mais úteis são os registos clínicos do SNS, as bases académicas do IMM, os financiamentos da FCT e as colaborações com centros hospitalares universitários. A documentação rigorosa de todas as fontes e pressupostos facilita a revisão pelo INFARMED e aumenta a probabilidade de aprovação.


Como executar a avaliação: fases, prazos e custos

Fases do projeto:

  1. Pré-projeto (1–2 meses): definição da questão, obtenção de consentimentos informados, aprovação ética, acordo com parceiros clínicos
  2. Recolha de amostras e dados (2–4 meses): biopsias ou amostras de sangue, reprogramação celular, registo de dados basais
  3. Modelagem experimental iPSC (3–6 meses): diferenciação celular, triagem paralela de compostos, validação de resultados
  4. Análise económica (2–3 meses): construção do modelo Markov/DES, análises de sensibilidade, relatório de VOI
  5. Relatório final e submissão (1–2 meses): síntese de resultados, preparação de dossier para INFARMED/FCT, comunicação a associações de doentes

Componentes de custo a orçamentar:

  • Custos laboratoriais: iPSC, reagentes, ensaios de triagem, CRISPR
  • Análise económica: modeladores, licenças de software, bases de dados
  • Coordenação clínica e gestão de amostras
  • Registo, compliance e aprovações éticas
  • Contingência para incerteza científica (recomendável 15–20% do orçamento total)

Os custos diretos e indiretos devem ser todos contabilizados desde o início. Omitir custos indiretos, como tempo de clínicos dedicado ao projeto ou infraestrutura partilhada, é um dos erros mais comuns e distorce o ROI calculado; em casos recentes de acesso inovador para ultrarraras, a economia estimada para o sistema público pode chegar a 65 milhões de reais quando comparada à terapia convencional, segundo estudos de caso sobre acesso por ensaio clínico.


Quem envolve em Portugal e como articular financiamento

O ecossistema português de investigação em doenças ultra-raras envolve atores com papéis distintos:

  • INFARMED: autoridade regulatória, avalia dossiers de registo e reembolso, define critérios de avaliação de tecnologias em saúde
  • SNS: pagador público, perspetiva central para análise de impacto orçamental
  • FCT: principal financiador público de investigação biomédica; aceita candidaturas individuais e em consórcio
  • IMM e centros hospitalares universitários: infraestrutura científica, recrutamento de doentes, validação clínica
  • Hopeatrarelabs: laboratório especializado em modelagem patient-specific, triagem terapêutica e tradução de dados para avaliação económica
  • Associações de doentes: parceiros na definição de desfechos relevantes e na comunicação de resultados

As parcerias público-privadas em investigação clínica podem acelerar o acesso e gerar dados que sustentam negociações de preço e incorporações, desde que o acordo inclua garantias de acesso pós-estudo. Para partilha de risco financeiro, os acordos contratuais com cláusulas de desempenho são cada vez mais comuns em submissões ao INFARMED.

Dica profissional: Envolva associações de doentes desde a fase de desenho do estudo. A sua participação melhora a relevância dos desfechos escolhidos, aumenta a taxa de recrutamento e reforça a aceitação social dos resultados junto ao SNS e ao INFARMED.


Como a Hopeatrarelabs integra modelagem patient-specific e avaliação económica

O fluxo de trabalho da Hopeatrarelabs combina triagem pré-clínica com suporte à avaliação económica numa sequência integrada. As células do doente são reprogramadas em iPSCs, diferenciadas no tipo celular afetado pela doença e usadas para triagem paralela de milhares de compostos, incluindo fármacos aprovados pela FDA, ASOs personalizados e candidatos a terapia génica.

Os resultados laboratoriais, taxas de resposta, biomarcadores de eficácia e perfis de segurança, são traduzidos em parâmetros clínicos que alimentam modelos de Markov ou DES. Esta integração é o que permite apresentar ao INFARMED ou a um patrocinador privado não apenas dados de bancada, mas uma estimativa económica defensável do valor da intervenção.

Tipo de dadoFonte provávelNível de incerteza
Taxa de resposta ao compostoEnsaio iPSC in vitroElevado (translação pré-clínica)
Progressão da doença sem tratamentoLiteratura e registos SNSModerado
Custos unitários hospitalaresTabelas SNS PortugalBaixo
Qualidade de vida basalEstudos publicados, EQ-5DModerado
Horizonte de sobrevivênciaRegistos de doenças raras (Orphanet)Elevado

A governação científica inclui consentimento informado, conformidade com o RGPD e parcerias com centros hospitalares portugueses para validação clínica. A Hopeatrarelabs fornece relatórios metodológicos detalhados e suporte a análises de VOI para orientar decisões de investimento futuro.


Riscos, ética e requisitos legais em Portugal

Os riscos específicos deste tipo de investimento agrupam-se em quatro categorias:

  • Risco científico: falha de translação dos modelos iPSC para contexto clínico; resultados in vitro não replicáveis in vivo
  • Risco regulatório: alteração de critérios de avaliação do INFARMED; exigências de evidência adicionais não previstas
  • Risco mercadológico: mercado demasiado pequeno para viabilidade comercial; dificuldade em atrair co-financiadores
  • Risco de acesso pós-estudo: incapacidade de cumprir compromissos de fornecimento gratuito após registo

Em Portugal, os requisitos legais obrigatórios incluem aprovação por comissão de ética reconhecida, consentimento informado documentado, conformidade com o RGPD para dados de saúde e plano de gestão de dados. Normas internacionais estabelecem que o patrocinador deve garantir acesso pós-estudo aos participantes durante um período definido após o registo do produto.

As mitigações práticas incluem acordos de partilha de risco com o SNS ou com co-financiadores privados, cláusulas contratuais de acesso pós-estudo e planos de comunicação regulares com comunidades de doentes. Os direitos dos participantes em ensaios clínicos devem estar documentados antes de qualquer recolha de amostras.


Principais conclusões

Avaliar o ROI em investigação de doenças ultra-raras exige um quadro holístico que combine métricas clínicas, económicas e de conformidade, com reavaliações periódicas ao longo do projeto.

Infográfico com os principais passos para analisar o retorno do investimento em doenças ultra-raras

PontoDetalhes
ROI holístico é indispensávelCombine benefícios clínicos, operacionais e de conformidade; o custo isolado não decide incorporações em ultra-raras.
A questão define o métodoFormule a pergunta com população, intervenção, comparador e horizonte antes de escolher entre iPSC, Markov ou DES.
Incerteza deve ser quantificadaUse análise de sensibilidade probabilística e VOI para orientar onde investir em evidência adicional.
Monitorize com marcos regularesPrograme reavaliações a cada 6–12 meses para capturar o retorno real à medida que a evidência madura.
Hopeatrarelabs integra as duas fasesCombina triagem iPSC patient-specific com suporte à avaliação económica para submissões ao INFARMED e ao SNS.

O que este quadro muda na prática

A maioria dos projetos de investigação em doenças ultra-raras falha não por falta de ciência, mas por falta de linguagem económica. Um resultado laboratorial promissor não convence um comité de reembolso; um modelo de Markov sem dados de qualidade também não. O que funciona é a integração das duas coisas desde o início, não como etapas sequenciais, mas como um processo paralelo onde os dados de bancada e os modelos económicos se alimentam mutuamente.

O outro erro que vejo repetido é tratar o ROI como um número a calcular no final do projeto. Num contexto de ultra-raras, o ROI é um instrumento de gestão contínua: serve para decidir se se avança de fase, se se renegoceiam condições com parceiros, se se ajusta o horizonte temporal. Quem o usa apenas para justificar o investimento já feito perde a maior parte do seu valor.


A Hopeatrarelabs pode ajudar na avaliação integrada do seu projeto

Para famílias, médicos e investigadores que enfrentam uma doença ultra-rara sem tratamento aprovado, o caminho mais direto para uma avaliação económica credível começa com modelos patient-specific bem construídos. A Hopeatrarelabs oferece modelagem iPSC a partir das células do próprio doente, triagem paralela de compostos terapêuticos e tradução dos resultados laboratoriais em inputs para modelos económicos adaptados às exigências do INFARMED e do SNS.

Hopeatrarelabs

O processo é transparente: cada projeto inclui relatório metodológico, análise de VOI e suporte à preparação de dossiers regulatórios. Não é necessário ter já um parceiro clínico definido para começar; a Hopeatrarelabs articula colaborações com centros hospitalares portugueses e apoia a candidatura a financiamento da FCT. Consulte o repositório de recursos para guias práticos sobre avaliação económica em doenças raras, ou contacte diretamente a equipa em hopeatrarelabs.com para solicitar uma proposta técnica adaptada ao seu caso.


Fontes úteis e leitura adicional para Portugal e a UE

Para aprofundar os temas abordados, estas são as fontes mais relevantes:

  • INFARMED: guias de avaliação de tecnologias em saúde e critérios de reembolso para medicamentos órfãos em Portugal (infarmed.pt)
  • SNS: tabelas de custos unitários hospitalares e registos clínicos nacionais (sns.gov.pt)
  • FCT: programas de financiamento para investigação biomédica e doenças raras (fct.pt)
  • IMM: centro de referência em investigação biomédica com infraestrutura para estudos em doenças raras (imm.medicina.ulisboa.pt)
  • Orphanet Portugal: base de dados europeia de doenças raras com dados epidemiológicos e registos (orpha.net)
  • EUCERD / ERNs: redes europeias de referência para doenças raras, com guias metodológicos e dados partilhados
  • Jornal de Assistência Farmacêutica e Farmacoeconomia: avaliação económica em ultra-raras e critérios diferenciados de incorporação
  • Blog Hopeatrarelabs: por que as doenças ultra-raras desafiam os ensaios clínicos, custo da investigação em doenças raras e modelos de negócio para investigação rara

Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico, jurídico ou financeiro especializado. Para decisões de investimento ou financiamento em investigação clínica, consulte profissionais qualificados e verifique os requisitos atuais junto ao INFARMED e à FCT.

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